24 setembro, 2022

# @efinco # Carlos Drummond de Andrade

Resenha :: Antologia Poética



Olá, pessoa! Chegamos à Antologia, um livro emblemático e deixo o próprio Drummond explicar um pouco, porque mesmo se você tiver a mão todos os outros, lhe faltará este. A Antologia foi organizada pelo próprio Drummond, que afirmou observar certas características, preocupações e tendências que a condicionam ou definem, em conjunto. “Lhe parecendo assim mais vertebrada e, por outro lado, espelho mais fiel.”



Escolhidos e agrupados os poemas sob esse critério, esta Antologia não seguiu a divisão por livros, nem obedeceu à cronologia rigorosa. Ficando os poemas distribuídos em nove seções. Durante a leitura é lícito dar razão a Drummond que já, em virtude da publicação, alertava que algumas poesias caberiam talvez em outra seção que não a escolhida, ou em mais de uma. A razão da escolha para cada sessão foi a tônica da composição ou desejo do próprio autor, conhecedor máximo de sua obra. 

  

“Há muito suspeitei o velho em mim. 

Ainda criança, já me atormentava. 

Hoje estou só. Nenhum menino salta 

de minha vida, para restaurá-la.” 

VERSOS À BOCA DA NOITE 

  

Quem, como eu, encontra este depois da leitura de Alguma Poesia, Sentimento do Mundo e Claro Enigma se reencontrará com alguns poemas selecionados destes para esta antologia, e será como beber um segundo copo da mais deliciosa bebida, aquela que mata a sede da alma e que desperta os sentidos e o coração. Em sua nova composição, ganham quase uma musicalidade nova, sem a perda da essência. Como uma canção composta em samba e tocada ao ritmo do pagode, muda-se a leitura e ganha-se em aproveitar como novidade algo já conhecido. 

 

Temos Drummond por Drummond, seu eu, suas coisas materiais e o imaterial. Seus medos, dúvidas e anseios, o novo e o velho que compõe cada uma, mas a Drummond acompanha a poesia e o gênio. Aquilo que até hoje o imortaliza faz com que seja mais um simples homem que viveu. Vemos seu coração nos amores, nos momentos de inspiração e da falta dela, as indecisões que compõem a vida rotineira e das grandes que cabe ao escritor e uma sombra, que me leva a crer em uma síndrome do impostor tão presente aos gênios. 

  

“Tenho saudade de mim mesmo, sau- 

dade sob aparência de remorso, 

de tanto que não fui, a sós, a esmo, 

e de minha alta ausência em meu redor.” 

ESTRAMBOTE MELANCÓLICO 

  

Um homem de dois estados, Drummond vivia no Rio de Janeiro com saudade de Minas Gerais, mas sua dor é que não existia mais a cidade que ele viveu para voltar. Ela já não era mais igual, tudo mudou, mesmo aquilo que continuava igual. Porém, o Rio de Janeiro lhe deu o mar, aquele sonho de água e vento e salgado que Minas não tem, sem uma visão romântica do que deixou ainda que apaixonado pela terra natal.



O pensar nas relações familiares, a linha do tempo passa de quem veio antes, por nós e aqueles que vem após nós. A efemeridade da vida, como tudo é breve e passageiro e, ainda assim, dura através dos tempos na passagem dos genes de um ente a outro. Sobre alguns que existem na lembrança e vão sendo delegados aos registros de sua existência, nós vivemos e entramos na roda do tempo até chegar a nossa vez de sermos aqueles que vieram antes e são lembranças e memórias. 

  

“Caminhas entre os mortos e com eles conversas 

sobre coisas do tempo futuro e negócios de espírito. 

A literatura estragou tuas melhores horas de amor.” 

ELEGIA 1938 

  

Homenagens, aos vivos e aos que partiram, os sentimentos passam das páginas em estado bruto, permeiam cada letra e pontuação, e existe uma beleza indescritível nisso, afinal que são os amigos? São a família que nós escolhemos ou se nossos ídolos têm aquilo que a atual sociedade falta. 

  

Falando a sociedade, a crítica, o olhar que vê com tristeza os caminhos a que esta segue. A certeza que na solidariedade reside a forma de melhorá-la, uni-la, fazê-la ser o que deveria por essência. Porém, precisa escrever sobre o luto, a perda de vidas trabalhadoras, da desolação dos problemas sociais e da esperança. O pensar em torno da existência e a tentativa de explicá-la, do viver e do existir, uma tentativa de interpretá-la. 

  

“Palavra, palavra 

(digo exasperado), 

Se me desafias, 

aceito o combate. 

(...) 

Preferes o amor 

de uma posse impura 

e que venha o gozo 

da maior tortura.” 

O LUTADOR 

  

Voltando ao sentimento de esperança que nos toca em querer amar e ser amados, provar o amargo do amor que nos causa essa necessidade quase desesperada de o sentir, que nem sempre responde amor com amor, às vezes indiferença e falta de reciprocidade.



Nessa antologia encontramos também alguém que domina de tal maneira a escrita, a poesia que brinca com ela, faz dela um exercício lúdico, que critica sua estrutura engessada, acadêmica, formal e ainda assim fala por meta linguagem da poesia como assunto, dela poesia por ela mesma e da aula de como (se ousássemos) escrevê-la, que ela não existe em torno do assunto de que trata e sim da palavra e da linguagem em que é descrita e, para mim, com uma humildade dada aos grandes de como nós mortais falar dos problemas e dificuldades de se expressar mesmo sentido, de encontrar as palavras certas. 

  

“a esperança mais mínima – esse anelo 

de ver desvanecida a treva espessa 

que entre os raios do sol inda se filtra.” 

A MÁQUINA DO MUNDO 

  

E de poema em poema, seja conhecido ou não, vamos nos aproximando do autor e de nós mesmos, é difícil falar da experiência de leitura, por entender ser única para cada um, mas também igual por beber da mesma fonte. Eu optei por ler uma de cada parte por dia, durante todo o dia parava em vários momentos para ler um dos poemas, e nos intervalos refletia, sentia necessidade de ouvir declamar, (obrigada, Youtube), de ficar mais tempo com o texto comigo, e me peguei lendo em voz alta, sentindo o poema em vários sentidos que não apenas a leitura e a imaginação. 

  

Deu para entender porque este é tido como o autor que mais aparece em vestibulares e Enem, que lhe imputam o título de ter escrito o melhor poema da literatura nacional. Foi uma experiência única me envolver de Drummond, e confesso que terminei com o coração repleto e, ainda assim, à espera de mais. 

  

No posfácio de Zélia Duncan encontrei uma alma afim, na leitura de Drummond ela ia descrevendo como sentia e nas mesmas conclusões, Carlos Drummond era moderno porque até hoje é atual, a poesia dele não ficou datada e, ainda assim, tem algo do tempo em que foi escrito e do hoje. Acho que só consegue entender quem acabou de ler, de sentir. Convido a você para vir se sentir assim, lendo essa obra maravilhosa.



Nesta edição, como nas anteriores, a capa e os extras mantêm a estética da coleção. Como escrevi acima, temos o posfácio de Duncan, lindo, emocionante e com uma analogia que se fez perfeita entre um show cultural e a curadoria de Drummond a sua antologia. Igualmente contém a Cronologia na época do Lançamento (1959-1965), que nos apresenta não apenas Drummond (CDA), mas também o Brasil, a Literatura Nacional e o mundo há época, uma preciosidade que adorna a joia que é esta edição, um verdadeiro presente aos leitores, afinal não apenas o tema, o tempo em que a obra foi escrita serve de base para entendermos o conteúdo da mensagem. E também as: Bibliografia do autor, Bibliografia Seleta e Índice dos primeiros versos.




Informações Técnicas do livro

Antologia Poética 

Carlos Drummond de Andrade 

Ano: 2022 

Páginas: 368 

Editora: Record 

Sinopse: 

Reunião de poemas feita pelo autor no auge da forma, Antologia poética retorna em novo projeto, com posfácio de Zélia Duncan. 

  

Até 1962, quando esta antologia foi lançada, a obra poética de Carlos Drummond de Andrade, então com 60 anos, era formada pelos seguintes livros: Alguma poesia, Brejo das almas, Sentimento do mundo, José, A rosa do povo, Novos poemas, Claro enigma, Fazendeiro do ar, Viola de bolso, Viola de bolso novamente encordoada, A vida passada a limpo e Lição de coisas. Todos hoje são clássicos da nossa literatura. 

Para tornar esta coletânea algo especial, já bastaria o fato de o próprio Drummond haver selecionado os poemas que a compõem. Mas a maneira como ele a organizou, dividindo-a em seções temáticas, faz dela um verdadeiro mapa da sensibilidade do poeta, que indica os caminhos não apenas de sua produção passada, mas também do que ainda estava por escrever. 

São ao todo nove seções, com poemas sobre: 1) o indivíduo; 2) a terra natal; 3) a família; 4) os amigos; 5) o mundo social e político; 6) o amor; 7) a própria poesia; 8) divertimentos poéticos; 9) a condição existencial. 

A esta amplitude temática, rara em qualquer escritor, soma-se uma grande variedade formal e notável competência técnica, o que faz de Drummond, sem dúvida, um dos poetas mais completos da língua portuguesa de ontem e de hoje. 

As novas edições da obra de Carlos Drummond de Andrade têm seus textos fixados por especialistas, com acesso inédito ao acervo de exemplares anotados e manuscritos que ele deixou. Em Antologia poética, o leitor encontrará um posfácio da cantora e compositora Zélia Duncan, e também bibliografias selecionadas de e sobre Drummond; e a seção intitulada “Na época do lançamento”, uma cronologia dos três anos imediatamente anteriores e posteriores à primeira publicação do livro. 

Bibliografias completas, uma cronologia de vida e obra do poeta e as variantes no processo de fixação dos textos encontram-se disponíveis por meio do código QR localizado na quarta capa deste volume.




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