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04 novembro, 2020

06 agosto, 2020

Resenha :: 457 Milhas

agosto 06, 2020 0 Comentários
*recebido em parceria com o Grupo Editorial Coerência

Olá, pessoa!!!! Vou compartilhar uma leitura que me chamou atenção, em um primeiro momento, não pela capa ou sinopse e sim pelo título. Não sei vocês, mas eu estou louca por uma ótima viagem, que me tire de casa com a promessa de diversão e sem riscos à saúde. Enquanto a realidade não me permite, aproveito para viajar nas histórias e essa viagem com 700 e poucos quilômetros eu mega recomendo. Então, sente no banco do carona dessa caminhonete comigo e vamos viajar!!


A história começa já com o carro em movimento, então vamos descobrir durante o trajeto que o maior problema de Emílio Andolini não é a falta de organização ou seu chefe avoado, muito menos terem confundido os horários do ônibus que levaria a equipe do escritório a uma premiação de publicidade no Uruguai... Sério! Nem mesmo ter de dirigir os setecentos quilômetros de Porto Alegre a 'Punta del Este' por estradas até certa medida bem conservadas, ou sequer chegar moído à premiação que vai consagrá-lo como o maior e melhor publicitário da América Latina.

Dentro do carro, a percepção de tempo era diferente. Nada se alterava. Nem para frente, nem para trás. Era como estar preso nos onze mil dias de Saturno sem saber o que fazer.

Era, no entanto, dirigir até lá com a redatora mais desprezível da agência e sua maior rival desde os tempos de faculdade, encarar oito horas de viagem com a mulher que masca um chiclete atrás do outro, que tem o dom de irritá-lo e que age como a rainha de Sabá do mundo da criação é definitivamente um problema. Um grande problema.


Então, já deu para notar que Emílio fará a narrativa dessa história em primeira pessoa, e sim temos uma história em voz masculina!!! Não sei você, mas adoro e estava sentindo falta, porque mesmo alguém criativo como ele consegue ser mais objetivo nos pensamentos, deixando o texto na medida para essa história.

— (...) mas não foi o tipo legal de tirar o fôlego, o tipo legal que te faz querer confessar todos os teus segredos, sabe?

Já adiantei que a viagem começa em Porto Alegre, então algumas expressões características da região Sul aparecem, mas nada que te faça abrir o Google para entender, então é perfeito para a história te tirar do eixo Rio-São Paulo e te colocar ainda mais em clima de viagem.

Falando em linguagem, preciso dizer que amei os diálogos e também os silêncios dessa história, seja porque na realidade ninguém passa oito horas em um carro tagarelando como se não houvesse amanhã, ou porque o mesmo tempo todo em silêncio seria impossível. Existe o fato também que, junto com o passar das horas e cidades (senti falta de um mapa para ir marcando os pontos citados, mesmo sendo chamada de semi-idosa porque hoje existe GPS, não ligo, queria ver e brincar com a rota, mas enfim...), as situações e conversas levam a uma realidade deliciosa e aquele tipo de conversa mesmo de viagem.

Incomodava porque ela era de carne e osso, porque existia todos os dias. Todos os dados são de carne e osso para alguém.

Que remota a DR (discutir a relação) mais sem noção, confidências e segredos e, claro, tirar a limpo histórias que ficariam estranhas se trazidas à tona em qualquer outro lugar, senão em um carro durante um percurso com hora e local para terminar. Outra coisa que percebi durante os diálogos foi a presença de alguns pontos bem marcantes ligados a profissão de ambos, como a importância da palavra em letras maiúsculas ou minúsculas, na atenção não só à frase, mas ao contexto geral que ela pode representar e ao que não foi dito, mas que fica ali nas entrelinhas esperando ser descoberto. E, claro, que propaganda é a alma do negócio e parece que a senhorita Salles leva isso a sério na própria vida.


E assim, sem nem perceber, fiquei amiga dos ocupantes dos bancos da frente e meio irritada com a aparente indiferença da Pietra Salles, mas logo notei que, como diria o poeta, sorrir demais é desespero e fui descobrindo que existia muito, muito mais por trás daquela fachada de quem veio a mundo para viver em festa e ema uma maré de sorte eterna.

A escolha de cada palavra era o coração de sua profissão.

A narrativa feita por Andolini é tão envolvente que me vi vivendo com ele as emoções na estrada. Claro que em momento nenhum da leitura achei que iria ficar sabendo das revelações de ambos, que são a grande virada na trama e, sem dúvida, o ponto decisivo do relacionamento de ambos. Acho que mesmo sem querer acabamos julgando o próximo por nossas medidas e caímos no erro de achar que a grama dele é mais verde. Foi algo tocante ver o tratamento antes feito pelos sobrenomes ir mudando para mais pessoal e íntimo. Claro que você, como eu, vai logo dizer: “Hey, eu sei que todo esse ódio na verdade é amor no fundo no fundo, se acertem!”. Mas, assim como a estrada precisava ser percorrida, as coisas entre eles precisavam encontrar um rumo antes de seguirem ao destino, sendo esse qual fosse.

Por fim, me encantei com todos os significados das coisas, como a importância de Saturno, que acabou por me lembrar de que nós somos muito daquilo que faz parte de nossas vidas no todo: como trabalho, hobbies e, principalmente, do quem buscamos ser com nossas escolhas. Para ser perfeito, acho que deveria ter a explicação psicológica do porquê daquele ato de puxar a borrachinha no braço que, de tanto atrito com a pele, coloria Saturno. Mas ainda sim, nada que tire o brilho e diminua a história... Só me deixou com esse gostinho de curiosidade não satisfeita.


Vale muito dizer que essa história foi vencedora do SweekStars 2018, da plataforma online Sweek. E posso dizer, depois de ler, que foi super merecido! Então leia, divirta-se e concorde comigo... rs. 

A edição está encantadora, ótima encadernação e impressão, papel e fonte confortáveis para leitura. Diagramação linda e uma revisão impecável, sem erros de ortografia ou digitação.

Boa leitura.


Nota ::  4,5


Informações Técnicas do livro

457 Milhas
Ano: 2019
Páginas: 152
Editora: Coerência
Sinopse:
O maior problema de Emílio Andolini não é a falta de organização ou seu chefe avoado. Não é um problema terem  confundido os horários do ônibus que os levariam a uma premiação de publicidade no Uruguai ou ter de dirigir os setecentos quilômetros de Porto Alegre a Punta del Este por estradas até certa medida bem conservadas. O problema não é chegar moído à premiação que vai consagrá-lo como o maior e melhor publicitário da América Latina.
No entanto, dirigir até Punta del Este com a redatora mais desprezível da agência e sua maior rival desde os tempos de faculdade definitivamente é um problema. Encarar oito horas de viagem com a mulher que masca um chiclete atrás do outro, que tem o dom de irritá-lo e que age como a rainha de Sabá do mundo da criação é um problema. Um grande problema.
O maior problema de Emílio Andolini não é a falta de organização ou seu chefe avoado. O maior problema de Emílio Andolini é Pietra Salles.
Simples e delicado assim.


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